Desenvolvimento Humano         

Desenvolvimento Humano

 O desenvolvimento humano é algo que já tem vindo a ser estudado na Psicologia nos últimos séculos. Houve um interesse inicial da parte de Jean-Jacques Rousseau, no século XVIII, contudo, só nos finais do século XIX e início do século XX é que surgiu um maior interesse dos estudiosos, influenciados pela teoria evolucionista de Darwin e pelo compormentalismo (behaviorismo) de Watson. 

 Este ramo da Psicologia, que se assume como um dos principais ramos de estudo nesta área, debruça-se sobre o estudo das mudanças físicas, cognitivas, emocionais e comportamentais no ser humano ao longo da vida. Estudar este desenvolvimento ao longo do ciclo da vida humana permite compreender os diferentes períodos/etapas de evolução da vida, e assim, identificar padrões de crescimento. Hoje em dia, estão consensualizadas quatro fases gerais de desenvolvimento: a infância, a adolescência, a idade adulta e a velhice - sendo que as 3 primeiras fases podem ter subdivisões com características específicas.

Para cada uma destas etapas, existe uma série de comportamentos típicos, bem como capacidades e habilidades que são adquiridas, e que são características dessa fase. Os psicólogos que estudam o desenvolvimento humano também apontam transformações profundas que os seres humanos sofrem em determinados estádios de crescimento.

 Além disso, a Psicologia do Desenvolvimento também se dedica a identificar os fatores que influenciam o desenvolvimento humano e que podem originar mudanças comportamentais. Estas influências podem ser internas e externas, destacando-se: a hereditariedade, no que diz respeito aos nossos genes e predisposições biológicas; o ambiente em que estamos inseridos, e com isto entende-se o nosso seio familiar, o nosso grupo de amigos, a nossa escola, a nossa cidade, etc.; as condições socioeconómicas, porque cada um de nós tem uma capacidade diferente de ter acesso a bens, serviços e oportunidades; e também as relações interpessoais, uma vez que o apoio emocional e social é essencial ao nosso bem-estar e ao nosso crescimento equilibrado e saudável. 

 Assim, a Psicologia do Desenvolvimento tem como objetivos descrever as mudanças que ocorrem nas várias áreas do comportamento humano, ao longo dos vários es´tagios de desenvolvimento, e identificar os fatores e as causas que levam a essas mudanças comportamentais. Ao fazer isso, é possível criar um certo padrão de desenvolvimento para as diferentes fases da vida, apontando as necessidades e características de cada uma delas. Conhecendo isso, é mais fácil promover o bem-estar e o desenvolvimento/crescimento equilibrado e saudável.

 No âmbito desta área da Psicologia, vários autores elaboraram as suas perspetivas em relação ao desenvolvimento humano. A perspetiva que eu escolhi foi a de Jean Piaget.


Perspetiva Construtivista de Jean Piaget

 Jean Piaget foi um importante psicólogo suíço, sendo considerado um dos pensadores mais influentes do século XX. Muito do seu trabalho foi direcionado para o desenvolvimento da inteligência infantil e os seus estudos tiveram uma repercussão nas áreas da educação, sociologia e psicologia.

 

 Piaget assumia-se como um epistemologista genético, ou seja, um estudioso interessado na génese do conhecimento, bem como do seu desenvolvimento ao longo do tempo, desde o nascimento até à idade adulta. De forma a explicar essa origem, o psicólogo suíço seguiu uma abordagem interacionista, ou seja, o nosso desenvolvimento não depende exclusivamente do meio ou das nossas estruturas inatas, mas sim de uma interação entre o ambiente externo e os fatores internos do indivíduo. Esta interação é essencial para a construção do conhecimento.

 Para Piaget, o conceito de inteligência era o mesmo que o de adaptação, e este último implicava mais três conceitos: a assimilação, a acomodação, e a equilibração. As interações com o meio permitem a aquisição de novas informações, e para que seja possível recorrer a esse conhecimento, é preciso que haja a assimilação. Com isto se entende que é o processo pelo qual o sujeito incorpora novas informações nas suas estruturas mentais/esquemas já existentes. Piaget considera que os esquemas mentais são fundamentais para o conhecimento, porque são as estruturas que organizam as experiências e os conhecimentos. Estes vão sendo criados e modificados ao longo do tempo, com a aquisição de novas informações. Já o conceito de acomodação refere-se ao processo adaptativo no qual o sujeito ajusta o esquema já existente às novas informações e conhecimentos, sofrendo uma modificação/transformação. Desta forma, quando o sujeito voltar a ser confrontado com essa realidade estará mais capaz paraes responder a essa situação. 

De forma a entender melhor estes dois conceitos, dou o seguinte exemplo: uma criança nunca viu um cisne, mas um dia vê um cisne branco e guarda essa informação nos seus esquemas mentais (assimilação). Noutras vezes, volta a ver cisnes brancos, por isso é capaz de acreditar que não existem cisnes de outras cores. Certo dia, vê um cisne negro, algo que nunca tinha visto. Pegando nessa nova informação, a criança modifica o seu esquema mental, atualizando-o (acomodação).

 Os dois conceitos que já referi são mutuamente dependentes, logo, um não acontece sem o outro. Ambos contribuem para a adaptação - processo em que se modificam os processos mentais e o comportamento, de forma a haver um melhor equilíbrio entre o indivíduo e o meio.  Já a equilibração tem como objetivo estabelecer o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, fazendo uma autorregulação. 

 Esta abordagem interacionista contempla uma série de mecanismos de adaptação ao meio que permitem a aquisição de conhecimento. Além de interacionista, a perspetiva de Piaget também é construtivista, na medida em que pressupõe que a construção da inteligência ocorre por estádios, e que o sujeito desempenha um papel ativo nesse processo, construindo o seu desenvolvimento cognitivo através das suas ações.

 Piaget propõe quatro estádios de desenvolvimento cognitivo, sendo que em cada um deles as crianças apenas conseguem aprender aquilo que estão prontas para aprender. De forma a explicar esta divisão no desenvolvimento cognitivo, Piaget recorreu a um método de observação naturalista, ou seja, observou e registou o comportamento dos participantes em ambientes naturais. Com este estudo, chegou à conclusão que são quatro o estádios de desenvolvimento:

  • Estádio sensório-motor (do nascimento aos 2 anos): Neste, o contacto com o meio é direto e imediato, sem que haja pensamento ou representação. Neste período, o bebé constrói e percebe o mundo pela coordenação de experiências sensoriais e ações físicas. Neste estádio, o bebé começa a compreender que os objetos existem mesmo que não os esteja a ver. O primeiro estádio de desenvolvimento é, por isso, marcado pela inteligência prática.
  • Pré-operatório (dos 2 aos 7 anos): Caracteriza-se pela interiorização de esquemas (mentais) de ação construídos no estádio anterior. Começa a representar o mundo as suas próprias palavras e imagens, demonstrando o desenvolvimento da capacidade simbólica, indo além das pistas fornecidas pelas ligações sensoriais e físicas. Este pensamento simbólico (conseguir pensar em algo sem que isso esteja presente) é a maior aquisição deste estádio.  Contudo, este período também é marcado por um forte egocentrismo, ou seja, a criança não é capaz de se colocar,  abstratramente, no lugar do outro, e julgando que as coisas acontecem em torno de si. Também são levadas pela aparência, não sendo capazes de relacionar os factos. Por último, as crianças não aceitam o acaso, e tudo deve ter uma explicação, questionando tudo.
  • Operatório concreto (dos 7 aos 11 anos): Neste estádio, a criança apresenta um pensamento lógico a respeito de acontecimentos concretos e desenvolve noções de tempo, espaço, velocidade, ordem, casualidade, etc.. Não se limita a uma representação imediata, mas ainda depende do mundo concreto para chegar à abstração. A maior aquisição deste período é a reversibilidade - a capacidade da criança compreender que dois objetos que são iguais numa determinada medida continuam a sê-lo apesar de existirem alterações a nível percetivo (havendo uma conservação).
  • Operatório formal (dos 11 até ao fim da adolescência): Neste período, o adolescente manifesta um pensamento mais lógico, abstrato e idealista. Não se limita às representações imediatas nem às relações previamente existentes, sendo capaz de pensar em todas as soluções possíveis do ponto de vista lógico, procurando respostas a partir de hipóteses e não pela mera observação da realidade (raciocínio hipotético-dedutivo). Este pensamento abstrato é a maior aquisição deste estádio. Apesar disto, o egocentrismo individual é uma marca desta etapa de desenvolvimento. Com isto se entende que o adolescente tende a ser dogmático, considerando as suas ideias e convicções as melhores, não estando, por isso, recetivo à crítica. 

NOTA: No meu trabalho sobre o livro "Seis Estudos de Psicologia", de Jean Piaget, encontram-se vários exemplos concretos das aquisições e ações nos vários estádios de desenvolvimento cognitivo. O trabalho está no separador "Trabalhos".


Concluo, por isso, que Jean Piaget defende uma perspetiva interacionista e construtivista do desenvolvimento humano, o que pressupõe uma interação entre o meio e as características internas do sujeito. Esta interação assume-se como a fonte do conhecimento. Por sua vez, a aquisição de conhecimento e a construção/desenvolvimento da inteligência acontece por fases/estádios de desenvolvimento cognitivo. O sujeito vai desenvolvendo progressivamente as suas estruturass mentais e o seu pensamento, sendo que no último estádio de desenvolvimento (adolescência), as estruturas cognitivas atingem o seu nível mais elevado de desenvolvimento.


Reflexão pessoal

 Realizei este trabalho sobre a perspetiva de Piaget sobre o desenvolvimento humano porque já tinha lido o seu livro "Seis Estudos de Psicologia". Este livro suscitou-me bastante interesse, e achei que fazia sentido aprofundar um pouco mais a sua teoria. 

 Concordo com a sua ideia de que o desenvolvimento humano acontece através de uma interação entre o meio ambiente e as nossas características internas. Ainda que concorde em certa parte com a ideia de que a construção da inteligência se dá por estádios de desenvolvimento cognitivo, acho que Piaget não considerou um fator muito importante. O próprio defende uma abordagem interacionista, mas depois acaba por ir contra a sua perspetiva, porque pressupõe que o desenvolvimento das crianças se dá de uma forma igual. Todos vimos de meios diferentes, e cada um tem predisposições genéticas específicas, logo não podemos ter todos o mesmo desenvolvimento cognitivo ao mesmo tempo, pode dar-se mais rapidamente ou de forma mais vagarosa. A perspetiva construtivista de Piaget faz uma padronização dos acontecimentos de cada estádio, assumindo que todas as crianças se desenvolvem da mesma forma naquele período, no meu enteder.

 Além disso, a perspetiva de Piaget pressupõe que o desenvolvimento cognitivo das crianças é contínuo e no sentido de uma evolução, mas nem sempre é assim. Existem muitos casos de crianças que após um período de evolução, têm um período de regressão, se não receberem estímulos que as façam evoluir. Logo, o construtivismo de Piaget não retrata as situações reais, mas sim uma situação idílica do desenvolvimento cognitivo das crianças.


27/05/2025


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