
"Seis Estudos de Psicologia"
"Seis Estudos de Psicologia" - Jean Piaget
Esta obra resulta de uma série de estudos realizados por Piaget na área do pensamento e inteligência, desenvolvimento cognitivo e também dos problemas da psicologia genética. Apesar de o livro não ser muito extenso, vou fazer só um resumo da 1ª Parte do livro, que fala sobre o desenvolvimento mental da criança nos vários estádios de desenvolvimento. Além de considerar a parte mais interessante deste livro, é também a que está mais relacionada com o programa de Psicologia B.
Piaget inicia esta obra com uma pequena introdução, na qual indica os 6 estádios de desenvolvimento cognitivo e mental das crianças que serão abordados na 1ª Parte deste livro. Os 3 primeiros estádios de desenvolvimento estão associados a ações essencialmente motoras e reflexas, e, segundo o autor, duram até cerca de 1 ano e meio a 2 anos (período bebé). Os 3 restantes estádios são mais relacionados com a inteligência intuitiva, com o desenvolvimento dos sentimentos morais e sociais, bem como as operações intelectuais abstratas e concretas. Estes últimos estádios vão desde os 2 anos até à adolescência.
Resumo da obra (1ª Parte)
- No 1º capítulo, Jean Piaget explora o período entre o nascimento e a aquisição da linguagem (0 a 2 anos), que, para ele, é marcado por um desenvolvimento extraordinário. O autor considera que as ações dos bebés são muitas vezes desvalorizadas, já que nós, pessoas com um nível cognitivo muito mais avançado do que o de um bebé, consideramos as suas ações básicas ou de fácil execução.
- Na verdade, estas ações realizadas por eles, como por exemplo puxar até si um objeto com a ajuda de um pau (exemplo da página 22) é uma ação que requer um grau elevado de inteligência. Segundo Piaget, só por volta dos 18 meses é que os bebés são capazes de perceber a relação que se estabelece entre este pau e o objeto, e como o pau serve como meio para alcançar o seu objetivo.
- Outro exemplo da inteligência e capacidade cognitiva do bebé, que todos nós conhecemos, é o de berrar para chamar a atenção dos que o rodeiam.
- O autor leva-nos a concluir que o período não verbal das crianças é marcado por um desenvolvimento mental extraordinário e de extrema importância, ainda que a maioria não pense nisso. Uma vez que o bebé ainda não é capaz de falar, tudo o que é aprendido por ele é através das perceções e dos movimentos.
- Um dos exemplos apresentados por Piaget neste capítulo suscitou-me bastante interesse. Aparentemente, os bebés não são capazes de perceber propriamente os objetos, pelo que se cobrirmos um objeto com um lenço, mesmo observando isto tudo, o bebé não é capaz de o encontrar, visto ainda não possuir as capacidades e ferramentas de pesquisa/busca (exemplo da página 25)
- Já no 2º capítulo, o psicólogo francês explora alguns domínios na fase da primeira infância (2 aos 7 anos), começando por abordar a evolução da socialização nesta faixa etária. Durante grande parte do tempo, estas crianças não têm conversas construtivas, mas sim diálogos muito centrados em questões materiais e visíveis, e em coisas objetivas e palpáveis. Além disso, demonstram alguma dificuldade em aceitar pontos de vista contrários ou distintos dos seus. Nesta idade, as crianças têm uma grande tendência para exteriorizar os seus pensamentos, sendo bastante comum observá-las a falarem sozinhas. Com o avançar da idade, este fenómeno diminui, passando a utilizar a sua "voz" interior.
- Também é abordada a evolução do pensamento da criança, que deixa de ser exclusivamente prático ou sensório-motor (baseado nas sensações e movimentos), e passa a ter o seu quê de lógica e racionalidade. Nesta faixa etária predominam dois tipos de pensamento: o egocêntrico, muito centrado nas vontades e ambições da criança; e o adaptado aos outros, mais relacionado com a vida social que a criança começa a desenvolver. Além disso, Piaget refere que é nestas idades que as crianças começam a questionar tudo o que as rodeia, surgindo os famosos "Porquê?" e "Porque é que é assim?".
- É referido que neste período as crianças começam a desenvolver a intuição. Contudo, devido à sua falta de conhecimentos e inexperiência, têm dificuldade em justificar a sua intuição, acabando muitas vezes por dizer "porque sim" ou "porque isto serve para...", se se tratar de um objeto. Piaget realça também a inteligência prática, que continua a assumir um papel mais relevante do que o pensamento/inteligência lógica, que se tem vindo a desenvolver nesta idade.
- Além disso, Jean Piaget fala sobre a vida afetiva e a correlação que esta tem com os interesses e valores da criança. Como o próprio diz, "Regra geral, haverá simpatia pelas pessoas que correspondem aos interesses do sujeito e que o valorizarão". Inversamente, a antipatia nasce da ausência de gostos/valores em comum, e eventualmente, da desvalorização da criança. Neste capítulo, Piaget refere que é nesta fase de crescimento que se cria o primeiro critério de bem, que por norma é a vontade dos pais (há que ter em conta que os pais são vistos como mentores e exemplos, pelo que aquilo que eles dizem é tido pelas crianças como absoluto).
- No 3º capítulo, relativo à infância dos 7 aos 12 anos, o autor começa por focar nos progressos da conduta e da socialização. Logo aos 7 anos, assiste-se ao aumento da capacidade de concentração a nível individual, o que permite que a criança consiga concluir uma tarefa de forma autónoma; e também a nível de grupo, sendo capaz de cooperar com os outros para que um objetivo comum seja cumprido. A partir dos 7/8 anos, as crianças começam a desenvolver a capacidade reflexiva, pensando antes de agir. Ainda que seja uma fase muito inicial do ato reflexivo, as crianças começam a deixar de ter uma conduta impulsiva, ponderando antes de agir.
- Também são abordados os progressos do pensamento. De forma a demonstrar a evolução e o progresso do pensamento neste estádio (7-12 anos), Piaget apresenta o seguinte exemplo: dois copos de água iguais e com a mesma quantidade. Num deles são dissolvidos 3 cubos de açúcar. De seguida, é perguntado às crianças o que acontece aos cubos de açúcar. As respostas são muito diversas e revelam uma evolução na capacidade cognitiva, sendo que aos 12 anos já são apresentadas respostas quase cientificamente corretas, apenas lhes falta saber aplicar os termos científicos adequados (Página 65 a 67).
- Piaget volta a referir o pensamento lógico, e as evoluções que este tem neste período. Progressivamente, as crianças detetam as unidades percetivas (comprimento, volume, velocidade, etc.) e por volta dos 12 anos já conseguem fazer uma articulação correta de várias unidades. É a partir desta fase que começam a desenvolver o pensamento matemático, interiorizando que os cálculos podem ser de adição, de subtração, de multiplicação e de divisão (estes últimos dois são mais difíceis de compreender numa fase inicial).
- Em termos afetivos, o autor realça que a partir desta idade as crianças começam a desenvolver o respeito mútuo pelas outras crianças, algo que antes não tinham (por norma, até aos 7 anos, respeitam apenas os adultos). Consequentemente, os valores de honestidade e de justiça começam a integrar os valores pessoais e morais das crianças.
- No 4º e último capítulo sobre o desenvolvimento mental, Jean Piaget explora os progressos que são observáveis na adolescência. Na pequena introdução que o psicólogo faz a este capítulo, o autor refere que a adolescência é uma crise passageira. Contudo, diz também que "embora haja um desequilíbrio provisório, não devemos esquecer que todas as passagens de um estádio a outro são suscetíveis de provocar oscilações temporárias (...)" (página 89), e que esta fase (eventualmente conturbada) do desenvolvimento permite um fortalecimento das capacidades dos jovens, aproximando-os do mundo adulto.
- Para o autor, os adolescentes demonstram um grande interesse pelos problemas não atuais (passados ou futuros). Todos eles têm as suas teorias e formas de pensar sobre os mais variados ramos (política, filosofia, etc.), mas a maior parte deles "limita-se a ruminá-las de forma íntima e secreta." (Página 90). Por volta dos 11/12 anos, há uma viragem decisiva no pensamento e na reflexão, passando do pensamento concreto para o pensamento formal ou "hipotético-dedutivo". Com isto se entende que o adolescente é capaz de deduzir conclusões tiradas de puras hipóteses, não necessitando de uma observação real/concreta para o fazer. O pensamento formal é quase uma revolução na forma de pensar dos jovens, uma vez que se conseguem libertar do real para formularem teorias e reflexões à sua vontade. Piaget refere-se a isto como o "levantar voo do pensamento".
- O autor também se foca na questão da personalidade e da interação com os adultos. É na adolescência que se consolida a personalidade, processo que se tinha iniciado no estádio evolutivo anterior. Piaget distingue estas duas personalidades: a da criança pequena deriva da imitação dos atos dos adultos e dos mais crescidos, e é dominada por uma sensação de inferioridade em relação aos mesmos. Por seu lado, a dos adolescentes é marcada por uma sensação de igualdade em relação aos mais velhos, mas ao mesmo tempo, sentem-se diferentes dos crescidos. Devido ao turbilhão de emoções e pensamentos característico deste estádio, os adolescentes pretendem transformar e mudar o mundo, e assim, espantar e ultrapassar os adultos. Os jovens sentem a necessidade de se inserirem na sociedade dos adultos, visto ser a única forma de concretizarem as suas ambições transformadoras. Além da questão da personalidade, Piaget refere também a descoberta do amor e o papel que este tem na aprendizagem emocional. Recusa, contudo, aqueles que reduzem a adolescência ao amor e aos sentimentos arrebatadores, visto que a adolescência é um período de evolução em diversos domínios. Por último, o autor identifica duas fases na vida social do adolescente: uma mais retraída, em que não demonstra grande vontade de socializar com os outros, focando-se mais nas suas divagações mentais; e uma segunda fase em que se associa a um grupo de adolescentes com os quais se identifica. Nestes, sente que há liberdade para expor os seus pensamentos e para haver uma discussão saudável sobre o mundo em geral.
Apreciação Crítica
Antes de mais, começo por dizer que gostei do livro. Não estava à espera de gostar muito dele, mas é bastante interessante e informativo. Tem uma linguagem bastante acessível e o autor não utiliza muitos termos científicos, o que facilita a leitura.
Apesar disso, não é um livro rápido de ler, e requer alguma atenção para perceber tudo o que Piaget pretende transmitir.
Além disso, os exemplos que Jean Piaget dá para demonstrar de forma prática aquilo que ele esteve a explicar são bastante exemplificativos, e permitem compreender melhor a parte teórica.
Aquilo que achei mais interessante e que me cativou mais neste livro foi perceber o que é que acontece nas várias fases do desenvolvimento cognitivo das crianças, e depois refletir sobre o que fazia com essas idades. De facto, identifiquei-me com muitas das coisas que Piaget refere no livro.
Embora trate um ramo menos explorado e se calhar menos apelativo para a maioria das pessoas, aconselho à leitura do livro, porque podem acabar por descobrir um novo interesse (como eu descobri).
"(..), o desenvolvimento mental é uma construção contínua, comparável ao levantamento de um vasto edifício que, a cada acrescento, se torna mais sólido, ou antes à montagem de um mecanismo subtil, cujas fases de gradual ajustamento levariam a uma elasticidade e mobilidade das peças tanto maiores quanto maior o seu equilíbrio."
27/3/2025
