Crianças-selvagens 

Crianças-selvagens (Trabalho Individual)

 São vários os casos de crianças-selvagens que conhecemos e que já foram estudados. Esta designação de criança-selvagem refere-se a todas aquelas crianças que cresceram longe da sociedade e da cultura. Algumas viveram na companhia de animais, outras sozinhas, por estarem em clausura, ou por terem sido abandonadas.

 Os estudos que se fazem demonstram que estas crianças, fruto deste desenvolvimento isolado, evidenciam uma dificuldade na interação com outras pessoas, ausência total ou parcial da fala, reduzida expressão facial, e no caso daquelas que cresceram no meio animal, apresentam hábitos selvagens.

 Aquelas que foram resgatadas e reinseridas no meio humano, demonstraram uma grande dificuldade em aprender e adquirir as competências linguísticas, cognitivas, afetivas, sociais e culturais, principalmente as crianças que viveram isoladas nos primeiros anos de vida.

Isto demonstra que, nos primeiros anos de vida, as relações interpessoais são de extrema importância, não só para a aquisição de saberes básicos, que nos são transmitidos pelos nossos familiares mais próximos e educadores de infância, os chamados agentes de socialização primária; mas também para o desenvolvimento cognitivo das crianças, através de estímulos. Estimulá-las é importante, porque só assim é possível que a criança desenvolva as suas capacidades cognitivas. Se não existirem estímulos, as crianças não desenvolvem as suas competências, como seria expectável ao longo das várias etapas da infância.

 O caso que trago é recente, de fevereiro de 2023. Trata-se de uma menina que foi mantida pela mãe numa gaveta, desde o dia do seu nascimento.

"Não sabia gatinhar, falar ou sorrir. Britânica manteve filha numa gaveta três anos." - Jornal de Notícias


 De acordo com as notícias que encontrei acerca desta menina, esta criança foi mantida dentro de uma gaveta desde o dia do seu nascimento, em março de 2020.

 Ao longo desses anos, a criança nunca viu a luz do dia, outros rostos humanos, e nem tinha provado um alimento sólido, tendo sido alimentada pela mãe através de seringas.

 Fruto deste isolamento da sociedade e da civilização, a menina apresentava um desenvolvimento físico e cognitivo muito atrasado, equivalente ao de uma bebé de 10 meses. Não conseguia gatinhar, andar, falar, e os seus membros estavam flácidos, evidenciando a pouca massa muscular da criança.

 Antes do julgamento da mãe, a criança foi-lhe retirada e passou a estar a cargo de uma cuidadora. Esta diz que a criança está a passar por muitas das suas primeiras vezes, como a primeira palavra, o primeiro passo. Informou também que teve de ensinar a criança a sorrir, algo que consideramos tão básico e comum nos bebés, mas uma vez que a menina nunca recebeu o estímulo para tal, não o sabia fazer.


Gaveta onde a menina foi mantida durante três anos


 O caso da menina em questão pode ser considerado o de uma criança-selvagem, porque esta viveu completamente isolada (em clausura) da sociedade durante três anos, contactando apenas com a mãe. Se compararmos este caso a outros semelhantes, reparamos que todos partilham os mesmos atrasos no seu desenvolvimento, nomeadamente na fala, na expressão facial e na dificuldade de interação.

Isto deve-se à ausência da socialização e interação com outros, bem como a ausência de estímulos, porque como é dito na notícia, a menina não sabia sorrir, falar, ou produzir qualquer tipo de ruído comunicativo, uma vez que nunca foi ensinada, nem recebeu estímulo para tal.

 Como demonstrei, esta menina viveu em isolamento numa fase crucial do seu desenvolvimento físico e cognitivo, o que resultou num grande atraso no seu desenvolvimento global.


 O estudo de casos de crianças-selvagens permite-nos perceber que ser humano não é só partilhar as características genéticas da nossa espécie, mas sim saber socializar com os outros, adquirir conhecimentos e competências, e viver de forma harmoniosa com os demais. Só assim, no meu entender, podemos ser considerados humanos, caso contrário, somos "animais", uma vez que não conseguimos estabelecer nenhum tipo de contacto com os outros, e demonstramos instintos selvagens (característicos dos animais).

 Concluo assim que a socialização e as interações sociais desempenham um papel fulcral no processo de nos tornarmos humanos (humanização), e que o estudo das crianças-selvagens vem demonstrar isso mesmo.


29/11/2024


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